Cobrar a Dívida
No seu papel de presidente da Comissão de Honra da candidatura de Cavaco Silva, Ramalho Eanes elogiou ontem o actual inquilino de Belém por "ter-nos feito entender que a crise era da responsabilidade de todos" . Essa, acrescentou, é a "grande dívida do País" para com Cavaco. O nosso rectângulo à beira mar plantado tem outros e igualmente sequiosos credores, mas esta factura desenhada à medida dos tempos eleitorais não deixa de ser relevante. Até porque é, em boa medida, verdadeira.
Cavaco Silva foi um dos principais cultivadores na actualidade desse velho exercício retórico que consiste em diluir as responsabilidades por todos de modo a que não recaíam sob ninguém em particular. Pondo-se na confortável condição de árbitro, Cavaco promoveu e caucionou os consensos empastelados que estão na base das políticas de austeridade levadas a cabo pela coligação dos PECs. E fê-lo usando o discurso do "grande esforço nacional", que iguala Teixeira dos Santos e o Zé do Telhado, Dias Loureiro e o jovem precário do call-center, o Manuel Germano e o género humano.
O país tem essa dívida para Cavaco e é justo realçá-lo. Quando foi preciso combater a impunidade, como no caso BPN, Cavaco optou por proteger os seus e onerar o país. Quando foi preciso demonstrar sentido de Estado e ultrapassar ressentimentos, como no funeral de José Saramago, optou pela fuga em férias. Quando foi preciso um presidente sintonizado com a modernidade, como no caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo, fez uma comunicação com desculpas ao país beato e atrasado, que ainda é o seu Portugal. Quando é preciso, como agora, um presidente com coragem para não ficar impassível perante os ataques continuados aos de baixo, Cavaco diz que a crise é responsabilidade de todos. Quando vamos precisar, como nos próximos anos, de um presidente com visão política e capaz de contribuir para activar uma democracia em processo de desaceleração, Cavaco anseia que o ilibam do debate público, nem que para isso tenha de cobrar aos portugueses pelo seu silêncio, apresentando-se estranhamente como "não-político".
Como bom português que sou, também eu estou consciente dessa dívida profunda a Cavaco Silva. A diferença é que estou disposto a saldá-la já em Janeiro, contribuindo para afastá-lo irremediavelmente desse contabilístico jogo do deve e haver a que alguns, ingénuos e irresponsáveis, também chamam "política".
Miguel Cardina
19:14 Terça feira, 7 de Dezembro de 2010
http://aeiou.expresso.pt/aparelhodeestado
Cavaco Silva foi um dos principais cultivadores na actualidade desse velho exercício retórico que consiste em diluir as responsabilidades por todos de modo a que não recaíam sob ninguém em particular. Pondo-se na confortável condição de árbitro, Cavaco promoveu e caucionou os consensos empastelados que estão na base das políticas de austeridade levadas a cabo pela coligação dos PECs. E fê-lo usando o discurso do "grande esforço nacional", que iguala Teixeira dos Santos e o Zé do Telhado, Dias Loureiro e o jovem precário do call-center, o Manuel Germano e o género humano.
O país tem essa dívida para Cavaco e é justo realçá-lo. Quando foi preciso combater a impunidade, como no caso BPN, Cavaco optou por proteger os seus e onerar o país. Quando foi preciso demonstrar sentido de Estado e ultrapassar ressentimentos, como no funeral de José Saramago, optou pela fuga em férias. Quando foi preciso um presidente sintonizado com a modernidade, como no caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo, fez uma comunicação com desculpas ao país beato e atrasado, que ainda é o seu Portugal. Quando é preciso, como agora, um presidente com coragem para não ficar impassível perante os ataques continuados aos de baixo, Cavaco diz que a crise é responsabilidade de todos. Quando vamos precisar, como nos próximos anos, de um presidente com visão política e capaz de contribuir para activar uma democracia em processo de desaceleração, Cavaco anseia que o ilibam do debate público, nem que para isso tenha de cobrar aos portugueses pelo seu silêncio, apresentando-se estranhamente como "não-político".
Como bom português que sou, também eu estou consciente dessa dívida profunda a Cavaco Silva. A diferença é que estou disposto a saldá-la já em Janeiro, contribuindo para afastá-lo irremediavelmente desse contabilístico jogo do deve e haver a que alguns, ingénuos e irresponsáveis, também chamam "política".
Miguel Cardina
19:14 Terça feira, 7 de Dezembro de 2010
http://aeiou.expresso.pt/aparelhodeestado

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