terça-feira, março 29, 2011

As culpas da União

Se há, nesta e noutras crises - financeira, económica, política, social e de valores - quem tenha culpas graves no cartório, como os espíritos lúcidos e independentes perceberam há muito, é a União Europeia e a fraqueza das suas instituições e lideranças: a Alemanha, da chanceler Merkel, a França, do Presidente Sarkozy, e a maioria dos líderes ultraconservadores que, nesta fase crítica, governam a esmagadora maioria dos Estados europeus. Tanto a senhora Merkel como o senhor Sarkozy sofreram pesadas derrotas eleitorais no passado domingo.

Tenho-o afirmado várias vezes, e quanto mais estudo os discursos e as resoluções (sempre adiadas) das sucessivas reuniões e cimeiras, mais me convenço que a União Europeia está a entrar numa perigosa fase de decadência e de desagregação, que está a pôr em causa, nos seus fundamentos, o projecto europeu, tal como o conceberam os chamados Pais Fundadores, de 1957. Um projecto político de igualdade e solidariedade, entre todos os Estados-membros, de paz, de bem--estar social, para todos os europeus, que tinha como meta a criação dos Estados Unidos da Europa. Mais de cinquenta anos depois, onde isso tudo vai?... O próprio respeito pelos direitos humanos, pela construção de um Estado social - que se tornou uma das identidades europeias - por uma cultura ambiental e por Estados de direito, isentos e operantes, está a ser progressivamente enfraquecido.

A crise financeira e económica actual - que está longe de ter passado - está a pôr em causa o neoliberalismo, que a maioria dos Estados europeus ainda não abandonou. O que implica rupturas urgentes, se a União Europeia não quiser entrar em decadência e perder o prestígio e o respeito que ainda goza no mundo. É por isso que a crise pode ser útil, se a União Europeia perceber, finalmente, que não lhe basta obrigar as populações europeias a medidas de austeridade, que reduzem o bem-estar das populações e aumentam o desemprego, para controlar os deficits públicos e privados. É preciso, igualmente, reduzir o desemprego, as manchas de pobreza e dar esperança e confiança aos parceiros sociais.

Quem tiver dúvidas a este respeito leia o artigo de Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia e professor da Universidade de Princeton, reproduzido no jor- nal i, na edição do último fim-de-semana, intitulado "A crise portuguesa e a política de austeridade". Escreve ele: "A austeridade não recuperou a confiança, não criou emprego e aumentou o deficit na Irlanda e no Reino Unido." E eu acrescento: na Grécia, na Irlanda e, com grande probabilidade, em Portugal, na Bélgica, na Espanha e na Itália. Quando é que o Presidente da União, o Banco Central Europeu e a Comissão compreendem esta situação e se dispõem a criar um novo modelo de desenvolvimento e de solidariedade, que evite a recessão dos países em dificuldades? Se o não fizerem, as rupturas não se farão esperar por muito tempo e poderão ser mesmo violentas. Ponham os olhos no que se passa no mundo...

Mário Soares
28mar11
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